sábado, 26 de fevereiro de 2011

Ângelo

Anjo, arcanjo
Sem asas, sem flautim
Se não mundano, quão divino?
Quando vem cuidar de mim?

Entre o sol e a minha sombra
Em cima da cômoda em escanteio
É você verdade ou algum outro devaneio?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Narciso e Narciso

- Ferreira Gullar

Se Narciso se encontra com Narciso

e um deles finge

que ao outro admira

(para sentir-se admirado),

o outro

pela mesma razão finge também

e ambos acreditam na mentira.


Para Narciso
o olhar do outro,
a voz do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.

E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.

E se amam mentindo

no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.

Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.

E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.

O espelho embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Para o cara ideal

O rebelde e o bom moço
O primeiro atrai, voz rouca e jaqueta de couro
Ao mesmo tempo que o segundo - o gentleman
Bom moço por fora, rebelde por dentro ou na proporção que for
Desse jeito fica irreversível, meu bem.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Querer não é poder

Preciso de descanso
mas dormir já parece perda de tempo

Preciso de amor
mas amar hoje parece o mais descartável dos verbos

Preciso de atenção,
de ar, de dinheiro e de abrigo;
preciso de alguém aqui comigo
preciso do mundo que sozinha eu inventei

O que eu quero eu não sei como consigo
enquanto isso o tempo passa e larga os restos pelo chão
às vezes me diz respeito e eu não admito
é meu defeito, é pra mim e eu digo não

Preciso de um pouco mais de tudo, só isso
Do tudo que me faria bem.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Implosão

Tenho muitas pessoas e não tenho ninguém
Faço amigos mas não acho confidente
Vivo sob um teto e não sei o que é abrigo;
Passam os meus dias e as minhas horas perdidas
Traço meus planos e minhas promessas falhas
Alterno entre dúvidas e revoltas frustradas;
De pensamento próprio e de algemas nas mãos
Que mal há em ser feliz?
Dizem que somos criados para o mundo
Meu mundo tem muros altos e paredes brancas
Vocês deviam retirar essa sua hipocrisia
"Não é como no meu tempo" vocês têm essa mania
Vocês não aprenderam que o tempo não para?
E o que eu tenho feito de mau?
Eu sempre fui uma pessoa boa
Isso tem mexido com a minha cabeça
E antes que eu me esqueça
Das coisas boas que acontecem de vez em quando
Essa ideia que todos têm
Eu sou só mais alguém que não gosta de falar do que sente
Eu deveria então sorrir e fingir que está tudo bem?
Vida de aparências eu nunca quis pra mim.

Melhor

"Eu tenho medo do mundo
Eu tenho medo do que pode acontecer
Eu tô cansado de tudo
De tanto lutar e nunca vencer

A raiva que eu sinto
Vem das coisas
Que nós sabemos de cor
Quando eu vejo seu rosto
Eu quero ser melhor
Eu quero ser melhor

Pense no seu futuro
Essa conversa sempre me dá sono
Eu sou o rei da derrota
E me sinto pequeno
Aqui no meu trono

A dor do fracasso
Podia ser muito maior
Se eu não tivesse você
Pra me fazer melhor

A raiva que eu sinto
Vem das coisas
Que nós sabemos de cor
Quando eu vejo seu rosto
Eu quero ser melhor
Eu quero ser melhor"

Capital Inicial

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Carma disse oi

Acometida de sonhos infantis
por outro alguém, outro alguém

Mas eu fico só no texto,
no poema e na música ideal
- do antes, do durante e do fim
tentando inutilmente trazer você pra mim
e você mal me diz oi ou tchau

E tudo fica na mesma
nas manhãs de segunda a sexta
algo mais, às vezes, só pra variar

Eu tenho um quê de masoquista
que gosta de sofrer em vão
mas por você nem tenho sofrido tanto
já aprendi com o desencanto
a mandar no que chamam de emoção

Eu vivo meu carma
de vida amorosa;
eu vivo num carma
e é tudo culpa da razão.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Morrer é opcional

Vivemos morrendo
em cada coisa que machuca
para que não doa mais

Vem um outro dia e nasce
e mesmo que esse dia logo passe
lá estamos nós pra morrer outra vez

Trocar sentimentos gastos e promessas desfeitas
por mais sonhos de tardes perfeitas
mais sol, mais chuva e mais reconciliação

Nós vivemos morrendo
não da morte dos pontos finais,
nos permitimos morrer da morte que convém

Deixar morrer é dar um passo a frente
pra se tornar um pouco mais gente,
deixar morrer é saber viver.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Verão morto (melhor que o seu)

Sou uma eterna insatisfeita
que despreza e rejeita

qualquer tipo de estagnação

Queria mais calor

e um pouco mais de tudo

nessas quentes noites de verão

Elas me pedem uma tal felicidade

pedido ao qual não dou prioridade
em nome do bom senso natural

Acho mesmo que deve ser problema meu
pois o alvo disso tudo sou eu
e pra mim, parece estar pegando mal

Amanhã já é dezesseis
e me digam vocês,
o que têm feito de bom?

Eu poderia estar morrendo de inveja
mas minha cabeça lateja
o que sua vida fútil quer dizer?

Agora você me pergunta
o porquê de tudo isso
mas pro seu tempo é desperdício
querer saber de mim

Vá então para o seu sábado a noite
não fique pra sentir pena
seu falso apreço me condena
não, obrigada, vivo bem assim.

Claridade

- Fantasma de mãos palpáveis,
o que lhe pertence por aqui?


- Um dia a mais e tudo termina
.

- Quem já foi meu céu e meu inferno,

meu verão enquanto inverno,

a dor da culpa e o culpado,

ainda volta pra me assombrar?


- Um dia a menos e tudo começa outra vez.

- Não mais,
aprendi a deixar a luz acesa enquanto durmo.