sábado, 27 de novembro de 2010

Reprimenda

Tudo para mim parece ser mais difícil
Que maldições - ou malcriações - do destino são essas?
É o medo de me verem crescer, só pode ser
Suas justificativas são de matar e eu estou morrendo
Construiram-me castelos envoltos de muros de pedra
Mas quando não é comigo as pedras viram areia ao vento

Hipócritas.

Poética I


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

(Vinicius de Moraes)

sábado, 20 de novembro de 2010

Natureza dual

O badalar da meia-noite, o sino da igreja que toca incessante,
Me sinto tão viva com o orvalho em minha pele
que me falta discernimento:
o real abraça o sonho e assim vou eu pela madrugada.

Eu tenho a lua como holofote em meio a um milhão de estrelas,
Eu tenho a paz de uma criança e a ferocidade de um jovem rebelde.
O chiaroscuro é meu, figuradamente falando.
Eu sou um dualismo sem contradição porque faz parte do meu show.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Para a lista

Meu caderno está quase no fim
Saem pelas bordas mediocridades
Eu costumava ser tão iludível,
Eu escrevia minhas próprias verdades

Melhores são os versos em vida

Vivo incinerando minhas concepções
- Elas não fazem o coração bater
Não acolho idéias nem simulações
Quero o que realmente vem a acontecer

Poemas serão transcrição,
Poesia, tradução
E este, mais outro conto de desilusão

domingo, 14 de novembro de 2010

Sobre o eu-poético

O eu-poético não é necessariamente poeta
ele escreve o que vem de dentro
com palavras que fazem juz ao sentimento
- e este nem sempre é o amor

Ele é o músico que compõe com notas silábicas
todas as coisas vividas e todas as que são desejadas
em alto grau de atenção e em profundo torpor

O eu-poético é um ser miserável
e ao mesmo tempo cheio de dignidade
pois trata-se de um eu instável
que expressa confuso toda a sua espontaneidade

Ser poeta é ter as palavras a seu favor,
ser eu-poético é jogá-las ao vento e ver para onde vão.

Aula de português

Eu tenho tido todos os motivos para querer escrever, hoje secretamente. Talvez seja um sentimento florescendo em mim ou despertando. Dizem que nascemos com ele, não aceito censuras então.
O que sinto não se refere a um sujeito, no estudo da oração ele é objeto direto; pois quem ama, ama alguém. Conjugar os verbos na 3ª pessoa do singular é um sonho meu. O eu-lírico já é um poço de verbos bons.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Em cárcere

Estou cansada dessa demora descomunal que me prende das mãos aos pés. É como se me proibisse a vida e o próprio ar. Por que tem que ser assim? Se você não me salva de mim, eu não posso fazer mais nada, porque eu sou meus grilhões, minhas algemas e minha camisa de força.

Não me deixe neste quarto acolchoado apodrecendo a mágoas que nem são minhas. Eu sei onde a chave se esconde. Me livre de tudo isso, pois as grades são mais do que parecem ser e mais do que eu posso suportar também.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Mau humor

Eu tenho ódio e desrespeito
Mascarados sob a educação.

Costuro amor e ressentimento
À liberdade como aspiração.

Não tenho motivos
E nem boas idéias.

Ridículo é tudo isso.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Várias quase verdades

Nos livros encontro o que eu queria escrever com
minha própria vida.
Fico só no sonho,
vivo de fato com os olhos da mente.

sábado, 6 de novembro de 2010

Desvario

Que dia escuro, que noites claras! Este meu inferno particular não mais me queima. Tenho de esboço um céu de aurora, que quando chuvoso é taciturno pra variar.

Um arrebol perturbador
me invade quando peço calma.

Contudo, meu céu é cheio de indecisão, desobediência e oscilações de humor. Acho que estou descendo a ladeira do inferno outra vez.

Tenho dúvidas até quando durmo e elas não vão cedo quando acordo: meus sonhos são um desvario e todas as coisas que não deviam acontecer, acontecem.

Já morri duas vezes e acordei com o despertador.

Destinatário

Tenho uma música na cabeça enquanto escrevo
E eu escrevo você bem sabe para quem.
Chego a pensar que você não se interessa
Recorro então a um lamento,
A uma canção cantada apenas por mim
Cujos instrumentos são os sentimentos que você inspirou.
Só não me olhe compadecido
Pois o meu amor-próprio não aceita esmolas.
Se um dia for afeição de verdade
Eu te compro um caderno e te mando todos os versos meus
Afinal, eles já te pertencem mesmo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Aprendendo com os mortos

Por que em Finados o dia fica tão tímido? O céu veste um frágil tom cinzento que não anuncia chuva e que também não promete sol. É o dia dos mortos ou das lembranças deles? Se for o dia das lembranças, o aspecto do céu contradiz meus sentimentos.

Dois de novembro é uma celebração da vida - meio distorcida, contudo uma que não pode ser ignorada -, existe para darmos mais valor à vida que temos, e ensina-nos a não perder tempo com insatisfações sem fundamento.

Vivemos irritados e somos mal agradecidos, negando sempre a forma como nossa vida termina. E termina? Há uma coisa chamada memória e um sentimento chamado saudade. Não são meios melhores do que a realidade do aqui e agora, mas as pessoas que deixaremos para trás não sofrerão de esquecimento.